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Antes de aprender a ler, ela já aprende quem pode liderar

O 25 de julho não é uma data sobre o passado. É sobre as histórias que estão na estante da sua casa hoje.

Tem um momento que quase toda mãe vive sem perceber que está vivendo. É quando a gente percebe que os livros da estante, os desenhos da TV e os bonecos da caixa de brinquedo contam sempre a mesma história, com os mesmos rostos. E que a criança que está ali no chão, virando as páginas com a mão inteira porque ainda não sabe usar só um dedo, está aprendendo alguma coisa com esse silêncio.

Ela não sabe ler. Mas ela já está lendo.

O 25 de julho reúne duas datas. É o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e no Brasil também é o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. A data internacional nasceu em 1992, no 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana, que reuniu mais de 300 representantes de 32 países. A data nacional veio depois, pela Lei 12.987, de 2014. TerraUfpr

E quem foi Tereza de Benguela? Ela liderou o Quilombo do Quariterê, também chamado de Quilombo Grande ou Quilombo do Piolho, no Vale do Guaporé, região que hoje é Mato Grosso. Assumiu o comando depois da morte de seu companheiro, José Piolho, e sob sua liderança a comunidade negra e indígena resistiu à escravidão por duas décadas. O quilombo abrigava mais de cem pessoas e funcionava como uma espécie de parlamento, com decisões discutidas em grupo e uma estrutura de conselheiros. As reuniões aconteciam uma vez por semana, em uma casa destinada só para isso, onde se discutia administração e as melhores táticas para manter Quariterê de pé. Memoriafeminista + 3

Repare no que essa história tem: gestão, economia, defesa territorial, articulação política. Não é uma história de sofrimento. É uma história de governo.

E é exatamente esse tipo de história que sumiu das estantes.

Aqui é onde a data encosta na primeira infância. Em 2019, a Academia Americana de Pediatria publicou seu primeiro posicionamento oficial sobre o tema, assinado por Maria Trent, Danielle G. Dooley e Jacqueline Dougé. O documento trata o racismo como determinante social da saúde, com impacto profundo sobre crianças, adolescentes e suas famílias. O texto aponta que o estresse gerado por experiências de racismo pode começar ainda na gestação e continuar depois do nascimento, com potencial de se tornar estresse tóxico. O posicionamento foi reafirmado pela entidade em agosto de 2025. American Academy of Pediatrics + 2

Não é uma conversa para depois. É uma conversa que já começou, com ou sem a gente.

E a boa notícia é que a parte que cabe à gente é pequena e concreta. Não exige aula de história nem discurso. Exige presença nas escolhas miúdas do dia a dia:

Quem aparece nos livros. Vale olhar a estante e contar. Quantas protagonistas negras existem ali, e em quantas delas a história é sobre dor?

Quem está na caixa de brinquedo. Bonecas e bonecos com traços diversos não são um detalhe estético para uma criança de 3 anos. É o material com que ela está construindo a ideia de quem é bonito e quem é normal.

Quem tem nome nas histórias que a gente conta. Tereza tem nome. Dizer o nome já é meio caminho.

O que a gente responde quando ela pergunta. As perguntas vêm cedo e vêm sem filtro. Responder com naturalidade vale mais do que responder com a frase perfeita.

Nada disso precisa acontecer hoje, nem todo dia, nem direito. A gente não está aqui para transformar mais uma coisa em cobrança. Está aqui para dizer que o silêncio também ensina, e que dá para escolher o que vai ocupar esse espaço.

Por muito tempo, a história fez questão de esconder nomes como o de Tereza. E quando a gente não conhece essas histórias, acaba acreditando que mulheres negras sempre estiveram à margem. Elas estiveram no centro. Da resistência, da criação, da educação, da cultura, da construção deste país.

Celebrar o 25 de julho é reconhecer esse legado. É lembrar das mulheres que vieram antes, das que seguem abrindo caminho e das meninas que precisam crescer sabendo que também podem ocupar qualquer espaço.

Porque memória não é saudade. Memória é compromisso.

E o compromisso, na primeira infância, tem um tamanho bem específico: cabe na história que a gente escolhe contar antes de dormir.

Luana Rodrigues
Quem escreve
Luana Rodrigues Escritora e Professora
Mãe, escritora, palestrante, percussionista, compositora e professora, mestra em Letras pela UFRJ, atua nas redes pública e privada do Rio de Janeiro e pesquisa literatura infantil afrorreferenciada.
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