
Por anos, o afeto foi físico e abundante. Colo, abraço apertado, beijo na saída da escola, mão dada na rua. E então, de um jeito quase imperceptível, isso vai mudando. O beijo na frente dos amigos some. O abraço fica mais curto. A mão dada vira coisa de criança. Para muitas mães, essa retração do carinho dói mais do que qualquer briga, porque parece que o filho está se afastando justo no gesto mais íntimo.
Vale dizer com clareza: o afeto não acabou. Ele mudou de forma. O adolescente está construindo uma imagem pública, especialmente diante dos amigos, e demonstrações de carinho dos pais entram em conflito com essa imagem de quem quer parecer mais independente. Recusar o beijo na frente da escola não é recusar você. É proteger uma fachada que, nessa idade, parece questão de sobrevivência social.
A prova de que o afeto continua aparece nos detalhes. O mesmo filho que encolhe o ombro no portão da escola pode deitar a cabeça no seu colo no sofá de casa, longe de qualquer plateia. O carinho recua em público e reaparece no privado. Ele fica mais raro, mais escolhido, e por isso mesmo mais valioso quando vem.
O que ajuda nessa transição é não cobrar o afeto que mudou e ficar atenta ao afeto que permaneceu. Forçar um abraço, reclamar do beijo que não veio, ironizar o “você não me ama mais”, tudo isso costuma empurrar o adolescente para ainda mais longe. Em vez disso, vale aprender a nova língua do carinho dele. Para muitos adolescentes, afeto agora se traduz em ficar por perto, em pedir uma comida específica, em mostrar um vídeo engraçado, em aceitar uma carona em silêncio confortável. São formas mais discretas de dizer a mesma coisa de sempre.
Também vale oferecer afeto no formato que ele tolera melhor. Um toque rápido no ombro, uma mão no cabelo de passagem, um “dorme bem” na porta do quarto. Pequenas doses, sem plateia e sem cobrança, mantêm o canal aberto sem constranger. O adolescente que não é pressionado a retribuir tende a, com o tempo, retribuir mais.
Essa fase do afeto contido não dura para sempre. Conforme o filho amadurece e fica mais seguro de si, o carinho costuma voltar a ficar mais espontâneo, agora entre dois adultos. O abraço que parece ter sumido na adolescência muitas vezes reaparece anos depois, mais raro, talvez, mas escolhido de verdade. Por enquanto, o que parece encolher de ombros é só o carinho aprendendo um novo jeito de caber.
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