Saúde Mental

TDAH não é moda nem falta de esforço

Poucas coisas cansam mais do que ver o seu filho ser resumido a uma palavra. Preguiçoso. Desatento. Sem limite. A gente escuta isso na reunião de pais, no grupo da família, às vezes até dentro de casa, e vai acumulando a sensação de que alguma coisa não fecha. Porque o que parece falta de esforço, muitas vezes, é uma dificuldade real de organizar tarefas, seguir instruções e sustentar a atenção.

Essa semana é dedicada à conscientização sobre o TDAH, e a data existe pra ampliar exatamente esse entendimento. O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento. Segundo a psiquiatra Luana Aparício, isso significa que ele não aparece do nada na vida adulta: os sintomas começam na infância, durante a formação do cérebro, mesmo que o diagnóstico só venha anos depois. É comum que adolescentes e adultos só descubram quando a vida passa a cobrar mais das funções executivas, aquela capacidade de planejar, organizar e administrar o tempo. Estima-se que o TDAH atinja cerca de 5% das crianças e adolescentes no mundo.

Na infância, os sinais costumam aparecer como desatenção, impulsividade, inquietação, esquecimentos e dificuldade de organizar tarefas. Coisas que mexem com o aprendizado, com as amizades e com a autoestima, e que quase sempre são lidas como preguiça ou desinteresse. Na adolescência, a agitação motora tende a diminuir, mas a dificuldade de manter o foco, planejar e controlar impulsos continua ali.

E é justamente nessa fase que os riscos crescem. Baixo rendimento na escola, conflitos nas relações e a possibilidade de comorbidades como ansiedade e depressão, principalmente quando o transtorno passa despercebido. A base genética também é forte: Luana explica que a herdabilidade do TDAH é uma das mais altas da psiquiatria, estimada entre 70% e 80%.

O diagnóstico é clínico e precisa ser feito por um profissional capacitado, que vai olhar para a história do desenvolvimento, para a presença dos sintomas em diferentes contextos e para o impacto real na vida daquela pessoa. O tratamento é individualizado e pode incluir orientação à família, adaptação escolar, intervenções psicossociais e, quando indicado, medicação. O objetivo nunca é mudar a personalidade da criança ou do adolescente. É tirar peso, reduzir prejuízos e abrir espaço pro potencial dele aparecer inteiro.

Conhecimento afasta preconceito. Quanto mais cedo o TDAH é reconhecido e cuidado, maiores as chances de um desenvolvimento saudável e de uma vida com mais qualidade. Nessa semana de conscientização, vale lembrar: o TDAH é um transtorno reconhecido pela ciência, e como todo transtorno, ele pede diagnóstico, cuidado e acolhimento.

Luana Aparicio
Quem escreve
Luana Aparicio Psiquiatra
Psiquiatra formada pela FMABC, com residência médica em Psiquiatria, pós-graduação em Sexologia pela FMUSP e doutoranda pela USP. Sua atuação é pautada pela ciência, pela escuta qualificada e pelo cuidado individualizado em saúde mental.
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